TERRA - SOL - LUA - ESTRELAS: fevereiro 2025
"Debaixo e dentro de todas as aparências ou manifestações exteriores, sempre houve uma Realidade Substancial. Esta é a lei."
(Caibalion)

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

Gilgamesh - o Semideus

 O Rei de Uruk e Herói da Literatura Antiga



    Na antiga Uruk viveu um rei que era metade deus e metade mortal. Gilgamesh, o soberano da Mesopotâmia cujo nome ecoa há mais de 4 mil anos, que governava Uruk com mãos de ferro, esmagando sob seus pés a liberdade do povo, sua força era lendária, sua arrogância, insuportável. 

    As muralhas que ergueu para proteger a cidade tornaram-se símbolos de sua própria prisão: um homem tão poderoso quanto solitário, temido por todos, amado por ninguém. 

    Até que os deuses designaram Enkidu (um homem selvagem cujo sorriso desarmava feras) para confrontar Gilgamesh.

    Quando os dois se enfrentaram, a terra tremeu. Punhos contra punhos até que no auge da luta os dois riram da situação e naquele momento se tornaram amigos fiéis e juntos enfrentaram monstros, desafiaram a fúria da deusa Ishtar quando ela enviou o Touro Celestial para vingar seu orgulho ferido. 

    Mas por trás da glória das batalhas, Gilgamesh se perguntava: "O que significa ser grande, quando até os heróis são feitos de argila e sonhos?"

    Quando seu amigo e irmão de alma Enkidu tombou diante de uma doença silenciosa, pela primeira vez o rei invencível chorou. Seu luto não era apenas por um amigo, mas por si mesmo - pois na morte de Enkidu, Gilgamesh viu o reflexo de seu próprio fim. 

    Foi então que partiu em uma jornada desesperada em busca da vida eterna, escalando montanhas proibidas e cruzando mares da morte, até receber uma lição: "A imortalidade não está no sangue, e sim nas histórias que deixamos nos corações dos que virão."

    Aquele rei que desafiava deuses, aprendeu a ser humano ao perder tudo. Voltou para Uruk com as mãos vazias, mas o coração cheio. Suas muralhas, outrora símbolo de tirania, tornaram-se testemunhas de um legado que a morte não apaga: a coragem de enfrentar a própria imperfeição. 

    Gilgamesh nos lembra que nossa verdadeira grandeza não está no poder que acumulamos, mas nas pontes que construímos - e nas lágrimas que não temos medo de derramar. 

     Somos imperfeitos, famintos por significados e eternamente em busca de um Enkidu que nos ensine a rir no meio da batalha.

    




Poema Manoel de Barros - O casaco

            Manoel de Barros

Um homem estava anoitecido.

Se sentia por dentro um trapo social.

Igual se, por fora, usasse um casaco rasgado e sujo.

Tentou sair da angústia.

Isto ser:
Ele queria jogar o casaco rasgado e sujo no lixo.
Ele queria amanhecer.



🌺☆☆☆☆☆☆☆🌺

sábado, 8 de fevereiro de 2025

O Mito de Sísifo

     O mito de Sísifo é uma narrativa bem intrigante da mitologia grega, envolvendo um personagem conhecido tanto por sua astúcia quanto por seu castigo eterno.     

 Sísifo era o rei de Corinto, uma cidade próspera na Grécia Antiga. Filho de Éolo, o deus dos ventos, Sísifo foi um mortal que ousou desafiar os deuses e as regras estabelecidas do Cosmos, utilizando sua inteligência e esperteza para enganar até mesmo entidades divinas.

        Ele era retratado como alguém ambicioso e arrogante, disposto a fazer qualquer coisa para alcançar seus objetivos. Uma de suas façanhas mais notáveis foi enganar a própria Morte (Tânato). 

    De acordo com o mito, quando chegou a hora de sua morte, Sísifo acorrentou Tânato, impedindo-a de cumprir seu papel. Como consequência, ninguém no mundo poderia morrer, resultando em caos e desequilíbrio na ordem natural. Zeus, o rei dos deuses, interveio e libertou Tânato, restaurando a ordem.

    Além disso, Sísifo também enganou Hades ( o rei do submundo), ao escapar do reino dos mortos sob o pretexto de resolver assuntos pendentes no mundo dos vivos. Sua astúcia e desrespeito pelas leis divinas levaram a um confronto inevitável com os deuses, que decidiram puni-lo de maneira exemplar. 

    Seu castigo foi proporcional as suas transgressões contra os deuses e a ordem cósmica. Seu maior erro foi sua hubris, ou seja, a arrogância desmedida de acreditar que poderia enganar os deuses sem sofrer consequências.

    Zeus condenou Sísifo a um castigo eterno no Tártaro ( a região mais profunda do submundo). Lá, ele foi forçado a empurrar uma enorme pedra até o topo de uma colina, apenas para vê-la rolar de volta para a base sempre que estava prestes a alcançar o cume.

     Essa tarefa interminável simboliza a futilidade de suas ações e a inutilidade de tentar desafiar as leis divinas. O castigo foi projetado para ser não apenas físico, mas também psicológico, representando a essência do tormento perpétuo e sem propósito.




    A história de Sísifo é uma representação da luta diária do indivíduo diante das responsabilidades repetitivas, das metas inalcançáveis e do sentimento de vazio existencial.

     A imagem de Sísifo empurrando sua pedra eternamente ilustra as batalhas intermináveis da vida cotidiana, nas quais muitas vezes parece não haver um propósito claro ou uma recompensa tangível. 

    Assim como Sísifo, muitas pessoas se encontram presas em ciclos aparentemente sem fim de atividades que, embora necessárias para a sobrevivência, não oferecem satisfação ou realização. 

    A frase final de Camus na obra - "é preciso imaginar Sísifo feliz" - sugere que, mesmo diante da falta de sentido, é possível encontrar uma forma de realização ao abraçar a própria luta e viver plenamente o momento presente. 

    A essência da vida não reside em suas recompensas finais, mas no esforço constante e na experiência vivida.
( Albert Camus e o Mito de Sísifo )